Coordenadora: Prof. Paula Coutinho
Serviço de Neurologia
Hospital S. Sebastião
4520-211 Santa Maria da Feira
INDÍCE
1. INTRODUÇÃO AO PROJECTO
2. O QUE É UMA ATAXIA
3. TIPOS DE DOENÇAS HEREDITÁRIAS
3.1 Transmissão dominante
3.2 Transmissão recessiva
3.3 Transmissão ligada ao sexo
4. ATAXIAS HEREDITÁRIAS
4.1 Ataxia de Friedreich
4. 2 Paraplegia Espástica Familiar
4.3 Doença de Machado-Joseph
5. RASTREIO
5.1 Objectivos
5.2 Metodologia
5.3 Resultados obtidos noutros distritos
6. COLABORAÇÃO NECESSÁRIA
6.1 O que se pretende dos Médicos de Família
6.2 Que doentes procuramos
7. EQUIPA RESPONSÁVEL PELO RASTREIO
#
1. INTRODUÇÃO AO PROJECTO
A última década do século passado foi declarada
pela Comunidade Europeia a década do cérebro,
contemplando uma investigação em larga escala,
no sentido de obter o mais amplo conhecimento
possível sobre as Neurociências. Em linhas
gerais, o seu plano enunciava as questões mais
prementes a investigar na área das doenças
neurológicas e estabelecia como prioridades, no
capítulo das doenças hereditárias, a descoberta
e análise dos genes responsáveis por estas
afecções e a identificação e tratamento dos
indivíduos afectados.
Neste âmbito se inseriu o rastreio de ataxias e
paraparésias espásticas hereditárias, que tem
como objectivos principais localizar,
diagnosticar e estudar do ponto de vista clínico
e genético este grupo de doentes, de modo a
contribuir para um avanço do seu conhecimento
que possa levar, no futuro, a novas perspectivas
de prevenção e tratamento.
Apesar de relativamente raras, as ataxias e
paraparésias espásticas hereditárias constituem
cerca de 10% das afecções genéticas do sistema
nervoso. São também doenças que acarretam, por
vezes precocemente, grande incapacidade motora,
com o consequente peso familiar e social. Dado o
desenvolvimento da genética nos últimos anos,
existe já, para muitas delas, a possibilidade de
diagnóstico pré-sintomático para aconselhamento
orientado e até de diagnóstico pré-natal. Para
aquelas em que o gene responsável não é ainda
conhecido, o caminho começa na identificação
precisa das famílias afectadas e na colheita de
sangue para estudos de genética molecular.
Nos últimos vinte e cinco anos, uma equipa de
médicos do Hospital de Santo António e do
Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da
Universidade do Porto tem vindo a estudar a
doença de Machado-Joseph, uma das principais
ataxias hereditárias, tanto nos Açores como no
continente. O projecto actual, apoiado pela
Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) do
Ministério da Ciência e Tecnologia, vem na
continuação desse estudo, agora enriquecido pela
colaboração de investigadores das áreas da
biomatemática e da saúde pública. O rastreio,
feito distrito a distrito, incluiu uma primeira
fase de divulgação - a nível da população, dos
clínicos gerais e dos neurologistas, seguida da
recolha de referências de famílias eventualmente
atingidas e, finalmente, da observação
neurológica dos seus membros. Baseia-se
essencialmente na qualidade da informação
recolhida através do clínico geral, que, pelo
seu contacto privilegiado com a população, tem
nele um papel fundamental.
2. O QUE É UMA ATAXIA
Ataxia significa simplesmente incoordenação dos
movimentos. Um bom exemplo do atáxico é a pessoa
em estado de embriaguez: a fala é mal
articulada, explosiva, intercortada (disartria),
o andar de base alargada, em equilíbrio
instável, os movimentos finos das mãos são
desajeitados, por vezes com tremor. Quando muito
marcada, a ataxia pode afectar o equilíbrio do
tronco, com oscilações e desequilíbrio na
posição sentada.
A analogia não é apenas clínica: o etilismo
agudo corresponde a uma intoxicação cerebelosa,
e o cerebelo é o orgão do sistema nervoso
central responsável pelo equilíbrio e pela
coordenação dos movimentos. A sua alteração, ou
das suas ligações a outras estruturas, leva à
ataxia cerebelosa.
Um síndrome cerebeloso é assim definido pelos
seguintes sinais:
Disartria
Incoordenação das mãos, por vezes com tremor
intencional
Ataxia da marcha
O diagnóstico de ataxia é fácil, basta muitas
vezes ver o doente andar, sobretudo em caminhos
irregulares, ou ouvi-lo falar, ou ver o que
escreveu. O doente atáxico é frequentemente
rotulado de bêbado, o que o ofende, tanto mais
que o álcool agrava os seus déficits e que
aprendeu por isso mesmo a não beber.
Outros síndromes neurológicos podem dar
perturbações do equilíbrio, confundindo-se com
as ataxias, em especial os síndromes
vestibulares: caracterizam-se no entanto por
vertigens (sensação de rotação do doente ou das
coisas à sua volta) e o desequilíbrio é sempre
para mesmo lado.
Algumas doenças neurológicas ocasionam ataxia,
particularmente a esclerose múltipla,
intoxicações crónicas e infecções víricas.
Muitas das ataxias são, no entanto,
hereditárias.
3. TIPOS DE DOENÇAS HEREDITÁRIAS
Todas as nossas características básicas dependem
de genes e cromossomas. Os genes são formados
por ADN, cuja sequência serve de código para o
fabrico de proteínas estruturais ou de enzimas.
Os genes estão dispostos em posição fixa ao
longo dos cromossomas, 23 pares (um herdado de
cada progenitor) para um indivíduo normal. Cada
par de cromossomas tem portanto dois genes na
mesma posição e com as mesmas funções, um
herdado do pai, outro da mãe; um deles, ao
acaso, passará a cada uma das células
germinativas, e portanto aos filhos. Calcula-se
que existam no homem 75.000 genes, de que se
conhece actualmente apenas cerca de um terço
(Verificar!).
As doenças hereditárias são provocadas por
mutações genéticas: num dado momento um
indivíduo sofre uma pequena modificação na
constituição de um gene, o que ocasiona uma
informação errada na função desse gene. Como
todo o material genético, esse erro passa a ser
transmitido à sua descendência.
3.1 Transmissão dominante
Nas doenças de transmissão dominante, basta a
presença de um gene mutante para que a afecção
se possa manifestar: ela aparece assim em várias
gerações: avós, pais, filhos e ramos colaterais
da família, e a sua existência é em regra bem
conhecida pelos seus membros, a não ser que um
ramo se tenha isolado, indo viver para longe do
tronco principal. A probabilidade de um filho de
um doente receber o gene é de 50%.
Dado que as manifestações deste tipo de afecção
dependem de um único gene mutante (sendo o outro
gene do par normal), elas ocorrem em regra na
idade adulta e têm uma progressão relativamente
lenta.
3.2 Transmissão recessiva
Nas doenças de transmissão recessiva é
necessária a presença de dois genes mutantes (um
do pai, outro da mãe) para que a doença se
manifeste clinicamente. Ambos os pais são
portanto portadores da mutação mas sem doença
evidente (podem ter por vezes pequenas
alterações ao exame clínico ou laboratorial).
Por isso os casos recessivos surgem por vezes
como uma surpresa para as famílias, cujos
membros não se sabiam portadores de um gene
mutante (todos nós somos portadores de mutações
que desconhecemos). É evidente que a
consanguinidade aumenta o risco de aparecimento
de afecções recessivas.
A presença de dois genes anormais (ou a ausência
dos normais) justifica também que muitas destas
doenças sejam mais graves, aparecendo mais cedo,
na infância ou na adolescência, e tendo
evoluções mais rápidas, impedindo regra geral a
procriação. Estas circunstâncias explicam que os
casos afectados se acumulem numa mesma frateria
(conjunto de irmãos) ou pareçam únicos numa
família normal. A probabilidade de um filho de
um casal portador ser doente (receber dois genes
anormais, um de cada progenitor) é de 25%, a de
ser portador (ter um só gene mutante) de 50%.
3.3 Transmissão ligada ao sexo
Algumas doenças têm uma transmissão recessiva
ligada ao sexo. Quando o gene anormal se
localiza no cromossoma X, só vão aparecer
manifestações clínicas da sua presença quando o
cromossoma X é único, isto é, nos indivíduos do
sexo masculino (XY). Nas mulheres (XX), o gene
normal localizado no outro cromossoma faz a
compensação. A doença é portanto transmitida
pelas mulheres e manifesta-se sobretudo nos
indivíduos do sexo masculino.
Outra noção básica em genética é a de portador:
indivíduo com um gene mutante e portanto
possível transmissor da doença. Todo o doente é,
obviamente, portador, mas outros portadores
poderão ser clinicamente normais e ter, no
entanto, o mesmo risco de transmitir a doença à
sua descendência. Por isso é tão importante
haver meios de diagnóstico pré-sintomático do
estado de portador para um aconselhamento
genético orientado. Do entendimento deste facto
pelos membros das famílias afectadas depende
toda a possibilidade de prevenção da doença e da
sua erradicação no futuro.
4. ATAXIAS HEREDITÁRIAS
Existem muitas formas de ataxias hereditárias,
dominantes, recessivas ou ligadas ao sexo, e têm
sido propostas as mais variadas classificações.
As suas manifestações clínicas não se limitam em
regra à ataxia cerebelosa. Em função do erro
genético, outros sistemas neurológicos, centrais
e periféricos, podem também alterar-se, dando
origem a quadros neurológicos habitualmente
complexos.
À ataxia podem por isso associar-se variados
sintomas e sinais, nomeadamente:
Atraso ou deterioração mental, sobretudo nas
ataxias recessivas.
. Sinais oculares diversos, que vão desde a
baixa de visão por cataratas ou atrofia óptica
até a perturbações dos movimentos dos olhos,
traduzidas por diplopia e estrabismo.
Sinais piramidais (espasticidade, hiperreflexia,
sinal de Babinski).
Sinais motores periféricos, traduzidos por
atrofia e fraqueza muscular.
Sinais extrapiramidais quer do tipo parkinsónico
(lentificação dos movimentos e rigidez), quer de
tipo distónico ou coreico (posturas ou
movimentos anormais da cabeça e dos membros).
Deformações osteo-articulares (quando as
perturbações motoras surgem na infância ou
adolescência) levando a escoliose e pés cavus.
Daremos apenas uma descrição sumária das ataxias
hereditárias mais frequentes. Faremos no entanto
uma descrição mais detalhada da doença de
Machado-Joseph, por ser o motivo primeiro da
ideia deste rastreio e por ter uma alta
prevalência em certas regiões de Portugal.
4.1 Ataxia de Friedreich
É uma das ataxias hereditárias mais comuns,
transmitindo-se de modo recessivo.
Começa habitualmente antes dos 20 anos, na
infância ou na adolescência. Os pais notam
primeiro uma marcha diferente das outras
crianças, com desequilíbrios e quedas
frequentes. Surge depois disartria e
incoordenação dos movimentos das mãos. Mais
tarde os músculos dos membros atrofiam-se, a
coluna deforma-se, surgindo a escoliose, os pés
tornam-se cavus. Estas deformações são tanto
mais importantes quanto mais precoce for o
início da doença.
Cerca de 10 a 15 anos após o início os doentes
estão confinados a cadeira de rodas e
dependentes da família para toda a actividade da
vida diária. Não há, no entanto, deterioração
mental.
Outros órgãos podem ser envolvidos ao longo da
evolução da doença, particularmente o coração (cardiomiopatia
hipertrófica, com crises de taquicardia e
insuficiência cardíaca em dois terços dos
casos). Há uma associação frequente (10% dos
casos) com diabetes insulino-dependente.
O gene da ataxia de Friedreich foi já
identificado, tornando possível a confirmação
directa do diagnóstico e abrindo muitos novos
campos de investigação sobre os factores
responsáveis pelo desencadeamento da doença e
sugerindo futuras linhas de tratamento.
Os casais com um filho com ataxia de Friedreich
têm 25% de probabilidades de outro filho vir a
manifestar também a doença. É agora possível,
através de exames genéticos, distinguir
portadores e não portadores, oferecendo aos
primeiros a possibilidade de diagnóstico
pré-natal. Este procedimento requer, no entanto,
um diagnóstico clínico exacto (tanto mais que
existe outra doença parecida causada por uma
deficiência em vitamina E) e o estudo prévio da
família.
4. 2 Paraplegia Espástica Familiar
É talvez a afecção mais benigna deste grupo, não
impedindo, nas formas do adulto, uma vida quase
normal. Trata-se de uma doença em que a
característica clínica fundamental é, não a
ataxia, mas a espasticidade dos membros
inferiores. É no entanto sempre incluída nas
classificações de ataxias hereditárias e nos
diferentes rastreios, por se associar em alguns
casos a incoordenação motora. A seguir à ataxia
de Friedreich, é a afecção de maior prevalência
nos levantamentos de ataxias hereditárias feitos
noutros países. O modo de transmissão pode ser
recessivo ou dominante.
Começa (na criança ou no adulto, conforme as
famílias) por dificuldade na marcha devida a
espasticidade dos membros inferiores, com
aumento dos reflexos osteotendinosos e sinal de
Babinski. Nas formas mais precoces surgem
deformações dos pés (pés cavus), tão graves que
podem tornar a marcha impossível. Em regra os
membros superiores são pouco atingidos, e não há
alterações de sensibilidade nem do controlo de
esfíncteres. Pode associar-se, sobretudo nas
formas recessivas, a atraso mental e outros
sinais neurológicos.
4.3 Doença de Machado-Joseph
A doença de Machado-Joseph (DMJ) é uma ataxia
hereditária dominante que conduz a uma
incapacidade motora grave e a uma morte precoce.
Espalhada um pouco por todo o mundo, tem uma
alta prevalência nos Açores, para onde terá sido
levada pelos colonos que povoaram primitivamente
o arquipélago e de onde foi ulteriormente
"exportada" para os Estados Unidos da América e
o Canadá.
Descrição clínica
Modo de início: A doença inicia-se normalmente
por perturbações do equilíbrio, descritas de
modo variado: dificuldade de andar em caminhos
estreitos ou com fraca luminosidade,
instabilidade ao dar voltas rápidas, sensação de
insegurança ao descer escadas. Muitos doentes a
comparam a um estado de ligeira embriaguez. A
diplopia é um sintoma de início mais raro.
Idade de início: É sempre difícil estabelecer
com precisão a idade de início em doenças
crónicas lentamente progressivas. Calcula-se no
entanto uma idade média de início de 40 anos,
com extremos que vão dos 5 aos 70 anos. Nos
casos de início precoce a doença tem uma forma
mais grave, rapidamente incapacitante, nos casos
tardios formas mais benignas que por vezes só é
possível diagnosticar sabendo que o indivíduo
pertence a famílias afectadas (embora possa
eventualmente ter já transmitido a doença).
Manifestações neurológicas: A DMJ é
caracterizada por um quadro clínico complexo, em
que se associam, em proporções variáveis
(conforme a idade de início), sintomas e sinais
dependentes do envolvimento de vários sistemas:
1. Ataxia cerebelosa: Está presente em todos os
doentes. À ataxia de marcha junta-se mais tarde
incoordenação dos movimentos dos membros
superiores e disartria. À medida que a ataxia
progride as quedas tornam-se frequentes, depois
a marcha só é possível com apoio e finalmente os
doentes ficam limitados a cadeira de rodas. Em
fases avançadas, a ataxia é tão grande que os
doentes precisam de ajuda em todas as
actividades da vida diária.
2. Manifestações oculares: A segunda
manifestação clínica mais frequente (valiosa em
termos de diagnóstico diferencial) é a
oftalmoparésia externa progressiva. Acompanha-se
quase sempre de diplopia e caracteriza-se por
uma limitação precoce do olhar vertical para
cima, seguida de limitação do olhar lateral. Os
movimentos oculares não são harmoniosos,
realizam-se com esforço e existe frequentemente
nistagmo. Um outro sinal muito característico da
DMJ, embora presente em apenas um terço dos
casos, são os olhos "saltados": não se trata de
uma verdadeira exoftalmia mas de um aumento da
fenda por retracção palpebral.
3. Síndrome piramidal: O síndrome piramidal é um
dos elementos dominantes do quadro clínico da
DMJ: caracteriza-se por espasticidade dos
membros inferiores, com reflexos osteotendinosos
vivos; encontra-se frequentemente sinal de
Babinski.
4. Síndrome periférico: Aparece sobretudo nos
doentes mais velhos. A sua expressão clínica é
variável, indo de uma simples abolição dos
reflexos aquilianos até atrofia e fraqueza
muscular distal, com arreflexia osteotendinosa
generalizada. Encontram-se com frequência
fasciculações, particularmente dos músculos das
pernas e coxas.
5. Síndromes extrapiramidais: Não sendo dos mais
comuns, são no entanto, uma das manifestações
mais características da DMJ. Têm uma expressão
muito variável em intensidade e tipo:
Quadro distónico: Em alguns doentes surge uma
postura anormal dos últimos dedos das mãos,
habitualmente em extensão, claramente agravada
pelo movimento. Em fases avançadas são
frequentes distorções e crispações da face, à
volta da boca e do mento, envolvendo os
movimentos da língua.
Quadro parkinsónico: Alguns doentes têm uma
moderada bradicinésia, manifestada por amimia,
com pobreza dos movimentos espontâneos da face,
diminuição do pestanejo e lentificação de todos
os movimentos voluntários.
Apesar de todo o atingimento motor, é
característica da DMJ uma perfeita integridade
mental, mesmo quando os doentes já não conseguem
comunicar.
Incapacidade: Na DMJ, as dificuldades motoras e
de articulação verbal estão na base da
dependência total que os doentes atingem. Pelos
10 anos de evolução, cerca de 50% dos doentes
necessitam de algum tipo de apoio na marcha.
Quanto à incapacidade de comunicação, aos 10
anos de evolução 25% dos doentes têm uma
disartria grave (tornando impossível a
comunicação com pessoas pouco habituadas).
Sobrevida e morte: A sobrevida é de cerca de 20
anos. A morte ocorre devido às complicações
habituais das fases terminais de doenças
crónicas com alectuamento prolongado, ou devido
a acidentes agudos de asfixia por aspiração.
Genética molecular
Nos últimos anos assistiu-se a grandes
progressos nesta área no conhecimento da DMJ,
primeiro com a localização do gene responsável
no cromossoma 14, um ano depois com a
sequenciação do gene e a descoberta de que não
se tratava, como para a maioria das doenças
genética, de uma mutação pontual, mas de uma
repetição anormalmente longa de grupos de bases
(CAG) na posição 14q32.1. Esta descoberta
permite desde já a confirmação do diagnóstico
através de uma análise ao sangue do doente, e
também o diagnóstico de portador do gene antes
de qualquer manifestação clínica. Esta última
possibilidade fornece um instrumento fundamental
na prevenção da doença em gerações futuras.
História e epidemiologia
A história científica da DMJ é relativamente
recente, iniciando-se na década de 70 com a
descrição de famílias açorianas afectadas nos
Estados Unidos da América. É curioso notar a
forma rápida como o interesse médico foi
despertado a nível internacional, em grande
parte por influência das comunidades
luso-americanas nos EUA.
A família Machado: A primeira publicação, em
1972, descreve a "Doença de Machado, uma ataxia
hereditária em emigrantes portugueses no
Massachusetts". Trata-se de uma família
originária da ilha de S. Miguel e radicada na
zona de Fall River, afectada por uma
degenerescência cerebelosa progressiva
transmitida de modo autossómico dominante, de
início tardio, associada a uma possível
neuropatia periférica. Todos os seus membros
descendem de William (Guilherme) Machado,
nascido na zona da Bretanha, no extremo noroeste
de S. Miguel. Alguns dos seus 13 filhos
emigraram para o Massachusetts nos finais do
século XIX e pelo menos nove são descritos como
afectados, dando origem a uma grande família de
que se conhece agora a quinta geração nos
Estados Unidos. Da mesma família Machado são
conhecidas já oito gerações nos Açores.
A família Joseph (Bastiana): Em 1976 é descrita
outra família açoriana - a família Joseph -
originária da ilha das Flores e emigrada no
século passado para a Califórnia, cujos membros
apresentam um quadro neurológico de aparecimento
precoce, pelos 25 anos. Esta família descende de
Antone Joseph, emigrado em meados do século
passado dos Açores para a Califórnia. Trata-se
de António Jacinto Bastiana, nascido em 1815 na
ilha das Flores de onde viajou em 1844, a bordo
de um baleeiro, até à Baía de S. Francisco.
Americanizou o segundo nome próprio do seu pai,
Francisco José Bastiana, também ele doente, e
adoptou-o como apelido. Dos seus sete filhos,
quatro foram por sua vez afectados,
conhecendo-se hoje oito gerações da família
Joseph, compreendendo mais de 600 indivíduos,
dos quais pelo menos 73 são doentes. Não se
conhecem actualmente ramos açorianos, mas foi
possível a ligação da família a outras atingidas
nas Flores.
Distribuição em Portugal
A DMJ é responsável por um dos maiores agregados
geográficos de ataxias hereditárias do mundo. Na
ilha das Flores um em cada 100 habitantes é
doente e um em cada 20 está em risco de vir a
ter a doença. No continente a taxa de
prevalência calculada é mais baixa, mas foram
até agora identificadas cerca de 50 famílias, a
maior parte originárias das Beiras e do Vale do
Tejo.
Nos Açores estão neste momento identificadas 37
famílias - 23 originárias das Flores, 12 de S.
Miguel, uma da Graciosa e uma da Terceira. Nas
famílias açorianas existem vários membros que se
estabeleceram no norte de Portugal ou em Lisboa,
mas mais evidente é a corrente migratória para
os Estados Unidos e para o Canadá.
Distribuição no mundo
É curioso notar que, à semelhança do que
aconteceu com a Paramiloidose, também a doença
de Machado-Joseph parece ter seguido as viagens
e migrações portuguesas.
Existe actualmente alguma evidência de que podem
ter existido várias mutações originais, duas
delas talvez ocorridas na zona centro do país.
Curiosamente, uma implantou-se na Ilha de S.
Miguel, a outra, a mais frequente em todo o
mundo, na Ilha das Flores.
Primitivamente os Açores não eram habitados.
Foram depois povoados ao longo dos séculos XV e
XVI por famílias vindas de todo o continente,
embora preferencialmente do sul. Judeus, mouros
do Norte de África e habitantes de outros países
da Europa contribuíram também para o seu
povoamento. Mais tarde chegaram os escravos
negros de África.
Os açorianos foram sempre grandes viajantes:
participaram em todas as viagens dos
descobrimentos portugueses, e emigraram para o
Brasil já no século XVIII e, a partir do século
XIX, para os Estados Unidos da América, muitos
em barcos baleeiros. A emigração para o Canadá
começou já depois da segunda guerra mundial. A
distribuição da DMJ segue estas diferentes
migrações: muitas famílias afectadas foram
identificadas na China e, sobretudo, no Japão
(algumas delas na primeira ilha onde os
comerciantes e jesuítas portugueses
desembarcaram no século XVI). Recentemente
descobriram-se quatro famílias afectadas numa
colónia de aborígenes do norte da Austrália,
frente a Timor. Outras famílias foram
identificadas no Brasil, sobretudo no Estado de
Santa Catarina, onde a colonização açoriana foi
mais forte.
Conhecem-se actualmente nos Estados Unidos
dezenas de famílias afectadas (a maioria de
origem portuguesa), quer no Massachusetts,
estado de emigração preferencial dos habitantes
da ilha de S. Miguel, quer na Califórnia, para
onde emigraram os habitante da Ilha das Flores.
Também no Canadá as famílias identificadas se
distribuem junto às duas costas - na zona de
Toronto e na de Vancouver.
A descoberta recente da localização e estrutura
do gene responsável veio demonstrar que a DMJ
parece ser a ataxia dominante de maior
prevalência a nível mundial, particularmente em
alguns países como os EUA, o Canadá, o Brasil, e
países europeus como a Inglaterra, a França e a
Alemanha. É a segunda mais frequente noutros,
como, por exemplo, o Japão.
Prevenção:
A DMJ constitui já um problema importante de
saúde pública nos Açores. No continente, a sua
extensão real tem vindo progressivamente a ser
conhecida através do rastreio, que revelou a
existência de grandes focos na Zona Centro e no
Vale do Tejo. A partir daí foi estruturado um
Programa de Teste Preditivo e Aconselhamento
Genético para a DMJ, que inclui três centros de
consulta, aconselhamento e apoio no continente
(Porto, Coimbra e Lisboa). Uma equipe com
estrutura semelhante está a trabalhar nos
Açores. Este é o primeiro esforço concertado
dirigido à prevenção e contenção da DMJ através
de um aconselhamento genético orientado. Cobre
também muitas outras doenças do mesmo grupo. O
diagnóstico correcto dos doentes e o rastreio
das famílias afectadas são portanto essenciais.
5. RASTREIO
5.1 Objectivos
1. Identificar doentes com ataxias e paraplegias
espásticas hereditárias, qualquer que seja o seu
modo de transmissão (dominante, recessivo,
ligado ao cromossoma X).
2. Estudar do ponto de vista neurológico esses
doentes e todos os membros disponíveis das suas
famílias, de modo a fazer o diagnóstico exacto
do tipo de ataxia em causa.
3. Estabelecer um arquivo nacional (pessoal,
clínico e familiar) dos membros de famílias
afectadas por ataxias hereditárias, que possa
servir de base a estudos clínicos (melhor
definição de critérios de diagnóstico, história
natural da doença, factores de prognóstico,
etc.), genéticos e epidemiológicos, em curso ou
a programar futuramente para cada doença.
4. Contribuir para o estabelecimento de um banco
de ADN de ataxias e paraplegias espásticas
hereditárias, com criação de linhas celulares,
de modo a haver material genético disponível
para utilização futura, à medida que for
avançando o conhecimento das diferentes doenças.
5. Colaborar no estudo genético molecular dos
doentes identificados, no sentido de: a) no caso
de uma ataxia já localizada do ponto de vista
genético, confirmar o diagnóstico clínico e
promover o diagnóstico pré-sintomático nos
indivíduos em risco que o pretendam; b) para as
ataxias ainda não localizadas, colaborar com
instituições nacionais e estrangeiras
interessadas no seu mapeamento cromossómico.
6. Determinar a distribuição geográfica das
diversas ataxias hereditárias em Portugal. Para
além do interesse imediato da identificação das
famílias afectadas, o conhecimento da sua origem
poderá contribuir, em relação às ataxias mais
prevalentes em Portugal, para o esclarecimento
de questões controversas, como a da origem da
mutação e da existência de acontecimentos
mutacionais únicos ou múltiplos.
7. Calcular a prevalência em Portugal de algumas
das ataxias e paraplegias espásticas
hereditárias mais frequentes, como base de um
planeamento organizado da sua prevenção, a
partir do diagnóstico pré-sintomático já
disponível para algumas delas, e visando,
idealmente, a sua erradicação no futuro.
8. Contribuir para a dinamização da investigação
em Saúde Pública e chamar a atenção, a nível
local, para este tipo de patologia e para os
problemas que cria, não só aos doentes, como às
suas famílias, no sentido de informar sobre as
possibilidades de prevenção existentes e
contribuir para a organização de sistemas de
apoio local.
5.2 Metodologia
Trata-se de um levantamento com base
populacional, feito essencialmente através da
selecção de possíveis casos de ataxias
hereditárias pelos clínicos gerais de cada
distrito. Outras fontes de informação são os
neurologistas e pediatras locais. Colaboram no
rastreio médicos de saúde pública, para o
contacto e planeamento do trabalho a nível
local, e neurologistas e internos complementares
de Neurologia. Temos vindo a interessar
progressivamente no projecto neurologistas de
várias regiões, tentando criar uma rede que
possa cobrir todo o país.
O rastreio faz-se por "módulos", cada um
correspondendo a um distrito. Em cada um são
conduzidas simultaneamente três linhas de acção,
dirigidas uma aos clínicos gerais, outra a
especialistas hospitalares, outra ainda à
população do distrito
Acção junto dos clínicos gerais
Obtida a autorização da Administração Regional
de Saúde, o coordenador de saúde do distrito, em
colaboração com o médico de saúde pública,
escolhe um responsável do rastreio em cada
centro de saúde (CS). Realiza-se então,
habitualmente na sede da ARS, uma acção de
formação para todos os responsáveis do distrito,
durante a qual são expostos os objectivos do
rastreio e conceitos básicos sobre ataxias,
hereditariedade, modos de transmissão e algumas
ataxias hereditárias mais frequentes. Os mesmos
conceitos são explicados num pequeno "dossier"
que lhes é entregue, acompanhado por um video de
vários doentes atáxicos. Cabe depois aos
representantes contactar todos os outros médicos
dos centros de saúde e alertá-los para o
rastreio. Os clínicos gerais são também
contactados directamente por carta, sendo-lhes,
numa segunda fase, enviado o "dossier" e o
protocolo que deverão preencher para cada
possível doente com ataxia hereditária.
O representante de cada centro de saúde recolhe
depois os protocolos e envia-os ao médico de
saúde pública, organizando este, em função do
número e características dos doentes, o programa
das consultas de Neurologia. Uma equipa de
neurologistas desloca-se depois aos centros de
saúde, onde observa os doentes e seus
familiares. As consultas podem também ser feitas
no domicílio, se o doente não puder ou quiser
deslocar-se. Para estudo complementar ou
tratamentos específicos, alguns doentes são
depois internados em Neurologia.
Acção junto de especialistas hospitalares
Os neurologistas do distrito são contactados
logo no início do rastreio, no sentido de se
obter o seu consentimento para o trabalho a
efectuar, e, idealmente, se conseguir a sua
participação activa. Neste caso é pedida a
revisão dos casos de ataxias e paraplegias
espásticas hereditárias do seu arquivo
hospitalar. São também alertados os pediatras da
área, com pedido de serem assinalados os
possíveis doentes, diagnosticados ou suspeitos.
Os doentes e famílias assinalados pelos
especialistas são também observados nas
consultas nos centros de saúde.
Confrontando esta informação com a fornecida
pelos Clínicos Gerais obtemos uma indicação
sobre a adesão e contribuição de cada uma das
fontes de informação utilizadas.
Acção junto da população
O médico de saúde pública da região e os
responsáveis de cada centro de saúde promovem
acções de divulgação através dos meios de
comunicação social locais no sentido de
alertarem as famílias atingidas para o rastreio
e consultas em curso.
Estudo neurológico
A todos os doentes assinalados é feita uma
observação neurológica completa. Em regra,
muitos não correspondem a ataxias hereditárias,
sendo frequentes casos de paralisia cerebral,
outra doenças genéticas e ataxias não
hereditárias. Também estes doentes são
medicados, se se justificar, e orientados para o
Serviço de Neurologia da área. É sempre enviado
ao responsável de cada CS um relatório com a
identificação, diagnóstico e orientação de cada
doente observado.
As observações dos doentes com ataxias
hereditárias são registadas e é proposto o
internamento em Neurologia dos casos que exijam
investigação complementar ou tratamento
específico.
Registo e análise dos dados
A informação recolhida é introduzida em registos
informatizados respeitantes a dados
sociodemográficos, familiares e clínicos.
Completado o rastreio no distrito, os dados são
validados e executados os cálculos de
prevalência das diferentes doenças na população
estudada. É também feita a avaliação da
fiabilidade da metodologia utilizada, procurando
introduzir as correcções possíveis.
Colheita de ADN
Após a visita a cada centro de saúde são
seleccionados os doentes e famílias para
colheita de sangue. Estas colheitas são
programadas para uma próxima deslocação e
encaminhadas depois para o laboratório
correspondente, conforme a afecção em causa.




