O seguinte artigo foi apresentado no Encontro
Anual de Membros da NAF 2005, em Tampa, na
Florida
Dr. Paulson é professor de neurologia na
Universidade de Medicina de Iowa Carver, em Iowa
City. Recebeu o seu doutoramento em Biologia
Celular na Universidade de Medicina de Yale.
Depois completou um estágio em Neurologia na
Universidade da Pensilvânia, seguido de um
pós-doutoramento em Neurogenética e Doenças do
Movimento. Em 1997, juntou-se á Faculdade de
medicina na Universidade de Iowa, onde foi
promovido a professor associado em 2005.
A pesquisa de Dr. Paulson relacionava-se com as
causas e tratamento de doenças
neurodegenerativas incluindo as ataxias
cerebelosas. Um particular interesse na doença
de Machado-Joseph (também conhecida como SCA3) e
desordens relacionadas com a poliglutamina.
Dr. Paulson co-dirige o Centro de Excelência da
Doença de Huntington e serve os quadros de
aconselhamento científico de numerosas
organizações nacionais relacionadas com a
doença. Recebeu vários prémios, e é
semifinalista da Fundação de Pesquisa Médica W.M.
Keck. Baseada na SCA3/DMJ, no seu laboratório
foi fundado um Projecto de Pesquisa da DMJ.
Agradeço-vos, mais uma vez, a oportunidade de
falar a vós este ano com uma actualização sobre
a ataxia espinocerebelar tipo 3 (SCA 3), também
conhecida como doença de machado-joseph (DMJ);
SCA3 e DMJ são nomes para a mesma doença.
Chamarei a esta doença SCA3 apesar de DMJ ser o
seu nome original, igualmente legítimo.
O último ano foi um bom ano na pesquisa para a
SCA3. Pelo menos 32 artigos foram publicados em
2004 directamente relacionados com a SCA3 (e
actualizados em 12/01/05: pelo menos, mais 29
desde então). Alguns dos maiores avanços feitos
nos últimos 12 meses em SCA3 foram:
1) Sabemos um pouco mais sobre o tamanho da
mutação; 2) o papel da proteína relacionada com
a doença está a chegar a uma melhor
clarificação; 3) RNAI continua a ser estudada
como uma potencial forma de terapia e 4) um novo
modelo de rato foi desenvolvido como tendo um
fenotipo neurodegenerativo. Por outras palavras,
este novo modelo de rato (desenvolvido pela Dr.ª
Verónica Colomer e colegas) tem mudanças
neuropatológicas e de comportamento que podem
servir como uma ferramenta poderosa com a qual
se poderão levar a cabo alguns dos mais básicos
estudos biológicos e pré-clínicos precisos para
a pesquisa em SCA3. Existem outros modelos de
rato SCA3, de momento impublicáveis (pelo menos
não tenho liberdade de falar neles), que também
parecem ter um fenotipo claro.
Neste discurso, focarei primeiramente as
propriedades da proteína da doença SCA3,
conhecida como ataxin-3, cujas novas evidencias
apontam para que possam ter um intrigante papel
no controle da qualidade da proteína. Irei
também focar a interferência RNA (RNAi) desde
que este tópico interesse a muitos de vós. RNAi
como uma aproximação ao gene “tóxico” em SCA3 ou
outras ataxias dominantes parece ser uma
potencial estratégia terapêutica. Precisamos, no
entanto, de estar conscientes que os cientistas
têm ainda muito trabalho a fazer antes que o
RNAi para a SCA3 possa ser utilizada em testes
clínicos.
Para aqueles que não conhecem a SCA3, é
importante que eu dê pelo menos uma ideia. A
SCA3 é uma das mais comuns, senão a mais comum,
ataxias dominantes. Mais do que as restantes
ataxias dominantes, a SCA3 pode manifestar-se de
várias formas no que diz respeito a sinais e
sintomas e á sua intensidade. Em adição á ataxia
e problemas no cérebro, pode haver espasticidade,
neuropatia e, em algumas pessoas afectadas,
sintomas da doença de Parkinson.
É importante enfatizar que esta é uma de nove
doenças neurodegenerativas que partilham do
mesmo tipo de mutação: a normal repetição CAG no
gene da doença torna-se expandida. Como a normal
repetição no gene normal, esta repetição
expandida repete códigos para o aminoácido da
glutamina na proteína desta doença. O tamanho da
glutamina é simplesmente maior na proteína da
doença do que na proteína normal. Então, estas
nove desordens são frequentemente chamadas de
doenças da poliglutamina expandida. Seis das
Nove doenças são ataxias espinocerebelares
dominantes (SCA 1, 2, 3, 6, 7 e 17); as outras
três são também neurodegenerativas e diferem
clinicamente das SCA`s. (As outras doenças são a
doença de Huntington, a desordem neuro motora
que é a doença de Kennedy, e a DRPLA, que
diferem das restantes ataxias.)
Em todas estas nove doenças, a proteína
expandida (isto é, a causadora da doença)
acumula-se de modo anormal dentro das células do
cérebro. Um sinal desta acumulação anormal é a
formação de corpos que se incluem em alguns
neurónios. Estas inclusões contêm a proteína da
doença assim como outras proteínas incluem a
pequena proteína modificadora, ubiquitina.
Porque destaquei a ubiquitina? Porque a proteína
ataxin-3 tem uma função altamente conservadora
que os cientistas reconhecem como tendo uma
função relacionada com a remoção da ubiquitina
que vem acoplado ás proteínas. No extremo
oposto, a ataxin-3 tem domínios muito mais
pequenos responsáveis pela ligação com a
ubiquitina.
Então o que é a ubiquitina? Ubiquitina é uma
proteína muito pequena, com um sexto do tamanho
da ataxin-3, que já por si é uma proteína com um
tamanho médio. Mas a função da ubiquitina nas
células não é pequena. É muito importante para a
célula, onde participa no controlo de qualidade
da proteína. Através da acção de enzimas
específicas, a ubiquitina vem acoplada a
proteínas maiores. Depois que as proteínas
sofrem a acção da ubiquitina, são frequentemente
marcadas para destruição. Toda a proteína feita
na célula tem um tempo de vida, algumas vivem
muito tempo enquanto outras são rapidamente
destruídas. De facto, em alguns mecanismos
celulares, manter uma proteína específica é tão
importante como fazer novas proteínas.
A maior forma de destruição das proteínas nas
células é através de um largo complexo de
proteínas chamadas de proteassoma. A proteassoma
pode actuar dentro da célula dividindo-a em
pedacinhos. De maneira a que a proteína seja
enviada para a proteasoma para degradação,
habitualmente tem de haver um canal de moléculas
da ubiquitina acopladas. Por outras palavras, um
ou mais canais de ubiquitina é conjugado á
proteína.
Depois que esta proteína sofre a acção da
ubiquitina e é entregue á proteassoma, os canais
de ubiquitina são removidos da proteína antes
que a proteassoma os desgaste. Então, novos
focos de ubiquitina podem ser reciclados para o
mesmo propósito. A ubiquitina obedece a outros
papéis na célula muito complicados para abordar
aqui. Suficiente para dizer, no entanto, que a
ubiquitina e as enzimas que o adicionam ou
removem são peças vitais para a elaborada
maquinaria da qualidade das proteínas que
existem nos neurónios. A Ataxin-3 é, então, uma
das proteínas designadas para remover a
ubiquitina das outras proteínas.
Isto é interessante porque na SCA3 e outras
doenças da poliglutamina, a evidência sugere
haver alguns problemas no controlo de qualidade
da proteína, em particular na sua degradação. Há
também fortes evidências genéticas de que esses
componentes específicos que contribuem para a
maquinaria do controlo de qualidade nos
neurónios pode modular doenças, pelo menos em
modelos animais e celulares. Estamos a começar a
suspeitar que a proteína da doença, ataxin-3,
está também aqui envolvida. Uma das coisas
importantes a reconhecer é que, além de ter
problemas de degradação nas proteínas através da
ubiquitina, a célula também precisa de
atravessar os canais da ubiquitina adicionados á
proteína e reciclar a ubiquitina para uma
variedade de propósitos. È preciso que haja um
caminho para retirar a ubiquitina das proteínas
e reciclar, senão seria muito mau para a célula
do ponto de vista energético. É aqui que a
ataxin-3 funciona, removendo a ubiquitina das
proteínas e reciclando-as.
Este conhecimento advém do trabalho de muitos
laboratórios usando uma variedade de técnicas.
Por exemplo, nós e outros purificámos a proteína
ataxin-3 e incubámo-la com diferentes tipos de
canais de ubiquitina. Neste tipo de processo, a
ataxin-3 prefere percorrer longos canais de
ubiquitina, não moléculas individuais do mesmo.
Se nós procedêssemos á mutação da parte da
ataxin-3 que liberta a ubiquitina das proteínas,
as proteínas «ubiquitinadas» acumulavam-se na
célula porque a ataxin-3 já não seria capaz de
as libertar. A pesquisa incide agora nos
substratos principais da ataxin-3.
Qual é a importância desta nova descoberta para
a fisiologia da célula e para a doença humana?
Actualmente o nosso modelo é o de que a ataxin-3
une os canais de ubiquitina acima de um tamanho
particular – maior parece ser melhor – e depois
prepara esses canais. Pode até preferir ajustar
a ubiquitina a tipos particulares de canais,
sendo que isto é um trabalho em progresso. Quais
são os alvos das proteínas que normalmente
actuam na célula? E quando a repetição da
glutamina é expandida na proteína (isto é, a
causa da mutação na SCA3) como é que isso afecta
esta função normal? Estas são questões a que o
meu e outros laboratórios estão a tentar
responder, através de experiências no tubo de
ensaio, em células e em ratos.
Como um primeiro passo no sentido de percebermos
como é que a função da ataxin-3 pode estar
relacionada com a doença, procurámos o nosso
colaborador, Dr. Nancy Bonini, um talentoso
biologista da Universidade da Pensilvânia,
pioneiro no uso da Drosofila (mosca da fruta) em
modelos de doenças da poliglutamina. Apesar das
moscas não se parecerem muito com os humanos,
nós partilhamos a mesma máquina genética e
maquinaria celular. Então, modelar a doença na
mosca é um caminho poderoso para identificar
genes e soluções que contribuem para a
descoberta da génese da doença.
Quando Dr. Bonini e os seus colegas expressaram o fragmento de poliglutamina na ataxin-3 expandida no olho ou cérebro, houve uma rápida e massiva degeneração. Os fragmentos de ataxin-3 provaram ser altamente tóxicos. Em contraste, quando expressaram a proteína da doença em toda a sua extensão, com uma ainda maior poliglutamina, isso causou uma incrivelmente lenta e suave degeneração. Foi quase como se as funções biológicas da ataxin-3 contrariassem a toxicidade intrínseca da poliglutamina expandida. Insistindo nesta ideia, quando a ataxin-3 normal foi expressada na mosca, isso suprimiu marcadamente a toxicidade causada pelas proteínas da poliglutamina expandida. Espantosamente, até a ataxin-3 expandida reteve alguma habilidade para contrariar a toxicidade de outras proteínas de doenças. Uma importante pista para o mecanismo de suprimir a toxicidade é a actividade relacionada com a ubiquitina. Se, por exemplo, a actividade da ubiquitina na ataxin-3 é interrompida mudando um único aminoácido, esta actividade de supressão está completamente perdida, e a ataxin-3 expandida torna-se extremamente tóxica para a mosca.
Esta descoberta sugere que a ataxin-3 serve
tipicamente para uma «boa» função no controlo de
qualidade da proteína, o que só acontece para
contrariar a má actividade que acontece quando o
domínio da poliglutamina se torna expandido. De
acordo com isto, a ataxin-3 parece tolerar a
expansão larga melhor do que a maior parte das
outras proteínas de doenças da poliglutamina
(por exemplo, uma repetição de 55 a 60 causa uma
relativamente leve e tardia progressão da SCA3
mas causará uma progressão muito mais antecipada
em muitas outras doenças da poliglutamina)Claro que o que é verdade na mosca pode não ser
no caso dos humanos. Actualmente estamos a falar
em prosseguir. com os nossos estudos para o passo
seguinte, tentando confirmar a descoberta em
moscas e em ratos modelos da doença.
Um resumo da história da função da ataxin-3, até agora, pode ser este: se pensam na ubiquitina como sendo muito importante para o controlo de qualidade da proteína, a ataxin-3 parece ser um modelador destes caminhos nos quais a ubiquitina é tão importante. De modo impressionante, estes mesmos caminhos já estiveram implicados na doença.
Temos muitas mais importantes questões
para responder, incluindo: será que este
conhecimento começa a dizer-nos quais os
caminhos biológicos que podem eventualmente
levar a uma terapia? Apesar de estarmos longe
dessa possibilidade, estamos certamente
entusiasmados com o projecto.
O segundo tópico que eu queria tocar é o
potencial uso da interferência RNA (RNAi) como
terapia. Podemos nós actualmente usar este
poderoso mecanismo celular como uma maneira de
travar a progressão da doença? Apesar de não
entendermos ainda por completo a biologia das
doenças da poliglutamina, sabemos que a expansão
CAG está relacionada com algum tipo de problema
tóxico a nível da proteína. Se pudéssemos
eliminar esse problema tóxico silenciando a
expressão da proteína, isso poderia ser muito
útil do ponto de vista terapêutico. O caminho
para produzir uma proteína através do seu ADN
azul, vem através de um passo intermédio trazido
por um tipo específico de RNA, o chamado
«mensageiro RNA» ou mRNA. Eliminando o mRNA da
SCA3, seria uma maneira directa de prevenir a
produção da proteína tóxica da ataxin-3.A RNAi
traz-nos um poderoso caminho para fazer isso.
A RNAi como um caminho para desligar especificamente um determinado gene foi descoberto há apenas uma década, mas foi baseado em tecnologia existente há mais tempo. A ideia é criar uma sequência nucleótida complementar que reconheça um gene em particular (mRNA) e previna a produção da proteína codificada pelo mRNA. Uma chave para a RNAi é que esta tem lugar através de um intermediário RNA duplo. Uma das faces desta molécula RNA dupla é complementar ao vosso mRNA, e esta face vem incorporada a um complexo de proteínas chamado de complexo RISC.
O
complexo RISC ajusta o complementar mRNA = no
nosso caso, será o SCA3 mRNA. Parte do poder da
RNAi é que o complexo RISC pode continuar a
actuar em outras cópias do mRNA. Isto significa
um relativamente pequeno número de complexos
RISC podem fazer um muito bom trabalho
eliminando o alvo mRNA.
Nos nossos estudos da RNAi, todos os que têm
sido feitos em colaboração com o laboratório Dr.
Beverly Davidson (também em Iowa), fizemos a
abordagem de criar vírus que fizessem as
moléculas RNAi suprimir vários genes dominantes
que actuam na doença. Estes incluíram vários
genes de doenças da poliglutamina como a SCA1 e
SCA3. A história é mais completa na SCA1, onde
Davidson e colegas tiveram sucesso usando RNAi
para níveis marcadamente mais baixos da proteína
mutante e abrandar o processo em ratos
transgénicos com SCA1. Vamos agora fazer o mesmo
tipo de experiências com a ataxin-3, empregando
a mesma tecnologia: gerando um vírus combinado
que codifique uma pequena porção de RNA, ou
shRNA. Esse shRNA então é processado pelos
neurónios para o reagente RNAi que pode ser
suprimido pela expressão da ataxin-3.
Para possibilitar esta abordagem em humanos para
a SCA3, precisamos de novos modelos de ratos com
SCA3. Felizmente estes modelos estão finalmente
a começar a chegar. Muitas questões têm de ser
respondidas e muitos caminhos há ainda a
percorrer para que se possa considerar a RNAi
como uma potencial terapia. Poderemos nós
alcançar uma chegada eficiente e sustentada da
RNAi ao cérebro das pessoas? Um cérebro de um
rato é muito mais pequeno do que um cérebro
humano. Em primatas não humanos com cérebros
muito maiores do que os dos ratos, os cientistas
obtiveram sucesso na entrega dos vírus a grandes
partes do cérebro, mas há ainda mais trabalho a
fazer neste objectivo. E qual é a região do
cérebro a qual deveremos incidir? Nos ratos com
SCA1, onde a RNAi trabalhou com tanto sucesso, a
proteína da doença foi engendrada para ser
expressa somente nas células Purkinje do
cerebelo, então nós sabemos exactamente onde
injectar o vírus. Na SCA3, os alvos da doença
não são só as células Purkinje mas incluem
também outras regiões do cerebelo, o sistema do
cérebro e o gânglio básico. Outro importante
ponto neste assunto da entrega regular da RNAi.
Podemos nós criar um vírus cuja expressão é
regulada por uma pequena molécula para que
pudéssemos apagar a produção da RNAi no caso de
causar efeitos adversos quando entregues de modo
crónico a pessoas? E em relação a alternativas,
abordagens não virais de entregas, incluindo
entregas implantáveis que pudessem ser ou não
apagadas?
Finalmente, a RNAi tem lugar através de uma
evolutiva e conservada maquinaria biológica que
serve importantes papéis fisiológicos em
organismos tão diversos como plantas e humanos.
Podemos nós actualmente actuar nesta maquinaria
biológica existente para apagar um gene doente
sem provocar efeitos adversos nalgumas das suas
funções normais? São todas questões importantes
que precisamos responder. De modo importante,
estamos agora numa posição onde podemos
responder a estas questões.
Deixem-me terminar dizendo que, apesar de eu
desejar que estivéssemos mais perto de uma
terapia com drogas para a SCA3, as coisas estão
a prosseguir de modo mais rápido do que
estiveram há alguns anos atrás. Estou confiante
que, o estudo agora tem boas células de base e
modelos animais com os quais podemos estar
preparados para vislumbrar drogas que reduzem a
toxicidade da ataxin-3 expandida e para
vislumbrar a RNAi como terapia. Temos, no
entanto, muito trabalho a fazer. Um benefício
para nós que estamos preocupados com a SCA3: por
causa das novas ligações descobertas na ataxin-3
aos caminhos da ubiquitina, um número de muito
bons cientistas ficaram certamente muito
interessados nesta intrigante proteína da
doença. Este brilho adicional, estas mentes
criativas só podem ajudar no avanço da causa da
SCA3.
Quero agradecer ás pessoas no meu laboratório, e
nos laboratórios dos meus colaboradores Nancy
Bonini, Bev Davidson, Vernica Colomer, Olaf
Riess e Udo Rub, pelo seu trabalho intensivo e
ideias espertas.
Font: Generatios Winter 2005-06

